terça-feira, 30 de maio de 2006

RÁDIO RENASCENÇA (canal 1) anos 80

Das únicas três rádios nacionais que existiam na primeira metade dos anos 80, a Renascença foi sem dúvida a que menos ouvi. Da emissão em Onda Média, nada. Apenas algum do FM.
«Despertar», «O Jogo da Mala» e «Bola Branca» eram as vacas sagradas da Emissora Católica Portuguesa («Bola Branca» e o «Terço» ainda estão na programação diária), mas passaram-me completamente ao lado enquanto ouvinte. Não nego a importância que estes programas tiveram (têm) na história da rádio portuguesa nos últimos 25 anos, mas não me dizem rigorosamente nada. O «Despertar» com António Sala e (a amiga) Olga Cardoso era um fenómeno de audiências e lideraram durante anos, mas das duas ou três vezes que escutei (sempre em zapping, no rodar do botão) nunca me fixei. Achava aquele estilo muito arcaico em comparação com o que ouvia na Rádio Comercial, essa sim, a minha estação de eleição e à qual era extremamente fiel. A «Bola Branca» escutei talvez o mesmo número de vezes e nas mesmas circunstâncias, as do acaso. A Rádio Comercial era, para mim, por demais inevitável! Eu não conhecia ninguém que ouvisse a Renascença. Toda a gente falava na Comercial. Ao tempo parecia-me completamente impossível que a Rádio Renascença tivesse maior audiência que a Rádio Comercial e, talvez por isso, ainda hoje não consigo acreditar nos estudos de audiência de Rádio que se publicam trimestralmente no nosso país. Da RR apenas consumi algum do seu FM, para mim bem mais interessante.


RÁDIO RENASCENÇA 2006
Continua a ser a estação amiga do ouvinte. Continua a ser a Emissora Católica Portuguesa. Conservadora, previsível, pouco ou nada arrojada. Pouco ou nada atraente. Encetou, muito timidamente, uma espécie de modernização com mudanças a nível musical – um pouco mais actualizada – mas ainda assim não a posso considerar uma estação moderna. Tem bons relatos de futebol, feitos com inegável profissionalismo e qualidade. À noite faz a diferença («Edição da Noite», 23:00/00:00) optando por uma hora informativa enquanto que as rivais TSF e Antena1 estão a emitir música ou rubricas em reposição (excepção do jornal de desporto emitido na Antena1 depois das 23:30). Durante a madrugada é a estação que mais palavra tem, sendo neste aspecto a rádio nacional que melhor companhia faz para quem quer ouvir gente a falar, mesmo que diga pouco. A animadora de serviço (02:00/05:00) é Cristina Abranches de Almeida.
Da RR de hoje em dia só acompanhei até há pouco tempo o programa «Com Sal e Pimenta», (Sábado 12:00/13:00) não por ser uma cópia do extinto «Flash Back» da TSF, mas por lá ter estado presente um grande português chamado João Bénard da Costa.
Segundo as sondagens, a Rádio Renascença é actualmente a segunda estação nacional mais escutada. Durante muitos anos foi a primeira, perdendo há poucos anos a liderança para a “filha mais velha” RFM.


RÁDIO RENASCENÇA (FM) anos 80
As emissões em FM da Rádio Renascença começaram em 1984. O simultâneo Onda Média /FM era desfeito durante 12 horas por dia (das 14:00 às 02:00). Coube a João Chaves, recentemente chegado da Rádio Comercial, inaugurar as emissões do FM da Renascença. Esse momento não escutei, mas acompanhei – nem sempre com a melhor das assiduidades – os seguintes programas:

«A Cor do Som»; «Meia de Rock»; «A Ocidental Praia»: Rui Pego em autorias diversas. Recordo bem «A Cor do Som». Era o programa da Renascença que mais se aproximava da estética desenvolvida na altura pela Rádio Comercial. Sempre achei que Rui Pego deveria estar na Comercial e não na RR. Parecia-me ser a “casa natural” para um radialista como ele era naqueles tempos, ao lado de outros grandes nomes da sua geração.
Do programa «Meia de Rock» tenho apenas a vaga lembrança de se dedicar às novas correntes emergentes da música portuguesa. E acho que era feito a meias com mais alguém. Da «Ocidental Praia» só me lembro da toada “paisagística” e fundamentalmente do genérico, que era o instrumental “Mar de Outubro” da Sétima Legião, o mesmo indicativo da «Íntima Fracção, que por sua vez era um programa mais antigo.

«Serra de Estrelas»: Duas mãos cheias de música e algumas palavras para muitos amigos.
A primeira emissão foi no dia 15 de Outubro de 1984, pela mão de Jorge Peixoto. João Porto, um ano mais tarde, conduziria o “Serra de Estrelas” por anos a fio até ao termo do programa já na primeira metade dos anos 90. De segunda a sexta-feira (20:00/22:00) cumpria com inegável eficácia o “buraco negro” das audiências na hora do telejornal e da telenovela (RTP). Servia de antecâmara ao «Oceano Pacífico». O ambiente era bem conseguido, a selecção musical não comprometia, mesmo que por vezes fosse – em minha opinião – demasiado aligeirada. Os clássicos da canção popular norte americana de 60 e 70 tinham aqui lugar. Bob Dylan e Cat Stevens são apenas dois exemplos. Alguns instrumentais não identificados também brilhavam como estrelas nesta serra de duas horas. Por exemplo, alguém consegue identificar o curto cântico que durante muito tempo abria a segunda hora? Sempre me pareceu ser a voz de falsete de Jimmy Somerville (Bronski Beat; The Communards). Por outro lado, também tenho a sensação de se tratar da voz de Bobby McFerrin... mas será que era ele? Quando o «Serra de Estrelas» terminou, João Porto passou a assegurar as duas horas de emissão (01:00/03:00) depois do «Oceano Paçífico», onde repetia amiúde a frase «Há Músicas Assim», mas já era uma coisa muito distante do «Serra de Estrelas». Actualmente João Porto está nas madrugadas da RFM (segunda a sexta, 02:00/06:00).
[ACTUALIZAÇÃO 08 de Março de 2017: o tema de abertura da 2ª hora é "Remedial Interruption" de Shawn Phillips]. 
 

«Oceano Pacífico»: Iniciou-se em Outubro de 1984 com a presentação de Marcos André (2ª a 6ª, 22:00/00:00). Em Dezembro desse ano o programa é entregue à apresentação de João Chaves. O que ainda acontece. O sucesso do formato de programa de autor com baladas/slows, juntamente com um tom de voz meio sussurrante, foi largamente copiado um pouco por todas as rádios locais (…e outras menos locais). De duas horas, passou a três e destas para as actuais quatro (22:00/02:00). É o programa mais antigo da RFM. Até há dias (agora há um programa de música de dança, «RFM Clubbing», ao sábado entre as 21 e as 2h da manhã) era, há já muito tempo, o único programa dito de autor na RFM. Mas será que actualmente se pode designar o «Oceano Pacífico» como sendo um programa de autor? Em minha opinião, claramente que não. Porque se durante os anos 80 e grande parte dos 90 o apresentador João Chaves escolhia a música a seu belo prazer, hoje em dia está sujeito aos estudos/testes de audição, no que resulta numa autêntica playlist de baladas/slows que escapa à sua escolha pessoal. Ora, se o autor de rádio não tem o pleno domínio da sua emissão, se não é detentor da primeira e última palavra, se não tem total autonomia editorial, então não é um programa de autor. Mais: já ouvi temas da playlist da RFM (os mais baladeiros) a encontrarem igual passagem em pleno «Oceano Pacífico»…
Um verdadeiro programa de autor tem como princípio basilar fazer a evidente destrinça entre ele e o resto da programação, principalmente do resto da programação da estação em que se insere. Mesmo sendo uma triste sombra do que já foi, o «Oceano Pacífico» tem há muito o seu lugar na história da rádio portuguesa. E continua a ser plagiado por aí, até mesmo por estações que seriam – à partida – insuspeitas de o fazerem.

«O Último Metro»: Nuno Infante do Carmo, numa primeira fase acompanhado por Mário Fernando. Duas horas de grande música, fazendo a divulgação certa entre vários estilos da música popular anglo saxónica, entrando sem dificuldades em terrenos indy/alternativos, várias correntes do Jazz, etc. Um leque vasto de novidades e de sonoridades que não sendo novidade, incorporavam o novo. Em Dezembro de 1986 fiquei a conhecer através deste programa dois álbuns musicais que ainda hoje estão entre os meus preferidos. A saber: “Gone To Earth” de David Sylvian, através do tema “Taking The Veil”e “Filigree & Shadow” dos This Mortal Coil com o tema “The Jewler”. Mas houve mais: Everything But The GirlCome On Home”, Pat Metheny, J.J.CaleMagnolia” e Dead Can DanceDawn To The Iconoclast” e “Cantara”.
Em Setembro de 1987, «O Último Metro» foi apresentado por Maria Flor Pedroso, fazendo as férias de Nuno Infante do Carmo. O Programa terminaria pouco tempo depois – ouvi a última emissão, em que NIC desfilou os temas “residentes” do programa em anos de emissões – por causa da transferência (um pouco tardia) do autor para o CMR-Correio da Manhã Rádio. O indicativo de «O Último Metro» era genial. Ouvia-se uma composição de metropolitano parar numa estação, o apito avisador de fecho de portas, o som do arranque e um instrumental minimalista electrónico. Simples e belo como poucos.
Actualmente NIC é animador no Rádio Clube.


RFM anos 80
O outro canal da Renascença

No dia 1 de Janeiro de 1987, o FM da Rádio Renascença torna-se autónomo 24 horas por dia, isentando-se da emissão em simultâneo com a Onda Média. Era o nascimento da Renascença FM, a
RFM. Alguns programas que vinham do “velho” FM mantiveram-se inalterados. Foi o caso de «Serra de Estrelas», «Oceano Pacífico» e «Último Metro». Outros nasceram já sob a designação RFM. Entre eles, escutei os seguintes:

«Os 100 +»: A primeira experiência de playlist em Portugal. Uma longa série de horas em que os temas musicais eram apresentados em forma de contagem decrescente. Nada mais nada menos que uma centena! Daí o nome «Os 100 +». Desconheço se eram os cem mais pedidos pelos ouvintes, ou os cem mais escolhidos pelos vários animadores que apresentavam as muitas horas do programa, ou se havia outro método qualquer para eleger a centena de canções pop-rock comercial que desfilavam. Na altura em que apareceu não me pareceu uma má ideia, e lembro-me do bom acolhimento que o novo formato teve junto das pessoas do meu círculo de conhecimentos, mas não muito tempo depois comecei a fartar-me de ouvir por causa das repetições e da previsibilidade cada vez mais recorrente. Dei-me conta que os temas apresentados eram sempre – ou quase sempre – os mesmos. Apenas mudava a ordem. Na verdade era um não programa. Afinal, era só uma playlist, não era?

«A Ilha dos Encantos»: Amílcar Fidélis. Um ET da rádio, de voz estranha e enigmática, autor da maravilhosa “Ilha dos Encantos” na primeira etapa da RFM, desde 1987 até 1990. Noites de semana, da meia-noite às duas da manhã. Indie Pop de extremo bom gosto (Triffids "Goodbye Little Boy"; The Sundays "Can't Be Sure"; Pixies "La La Love You"; Anna Domino "Lake"), com rubricas fixas, como por exemplo “O Tesouro da Ilha”, que tinha a voz de Teresa Fernandes no jingle. Também havia alguns convidados esporádicos para se debater sobre determinado tema. Foi assim durante várias emissões no início de 1990 para fazer-se o balanço da década que entretanto acabara. Fidélis, com a então defunta década ainda arrefecer, fez corajosamente o balanço dos anos 80 como ainda hoje ninguém conseguiu fazer sobre a década de 90.



«Colar de Pérolas»: Uma selecção musical a cargo de Manuel Falcão com apresentação de Luís Silva (sábado, 00:00/02:00). Ao «Colar de Pérolas» devo a descoberta de... duas pérolas: os álbuns “Drum” e “Mettle” dos nova-iorquinos Hugo Largo, ambos concebidos em 1988. Os dois trabalhos deste atípico agrupamento avant gard tiveram amplo destaque neste programa da RFM.

«Atlântida»: Uma aproximação (muito aproximada mesmo) a um programa que habitava (e ainda habita) a mesma casa… “Oceano Pacífico”. Apresentação de Rui Branco (mais tarde com apresentação de Luís Silva). Sábados e Domingos (22:00/00:00). A voz de Rui Branco, que conhecemos da muita publicidade que grava, foi insuficiente para ganhar raízes. Penso que a ideia era manter a linha do «Oceano Pacífico» ao fim de semana, mas «Atlântida» afundou-se na comparação com o original.

«O Descanso do Guerreiro»: Marcos André, por ventura a melhor voz de sempre nos quase vinte anos que RFM tem de vida. Foi um espaço musicalmente sem grande interesse, mas que tinha na voz do apresentador a sua mais valia. Atenção: aqui já estávamos no início dos anos 90.

«A Vida Também se Diz»: Um pequeno apontamento religioso em espécie de aconselhamento diário. Era curtíssimo, reduzido a uma ou duas frases e a uma só ideia. Aparecia à meia-noite, entre o «Oceano Pacífico» e «O Último Metro». Para um jovem adolescente e assumidamente agnóstico, aquelas palavras não eram desconexas. Muito pelo contrário.


RFM 2006Só Grandes Músicas

Uma estação quase 100% musical (inclui sínteses noticiosas de hora a hora, das 07:00 às 00:00 e curtos apontamentos de cariz religioso), playlist de música pop-rock comercial. Tem uma apresentação estética demasiadamente plastificada, pouco natural. É a estação nacional mais escutada em Portugal, segundo as sondagens. Mas tal como dizem os políticos, “as sondagens valem o que valem”.



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