segunda-feira, 21 de março de 2005

SINATRA DANÇA!

Há cerca de dez anos abri o jornal e vi uma foto a preto e branco de José Duarte. Na altura, o que me deixou em tons de cinzento não foi o ar espantado - pelo menos assim mo pareceu - da figura do homem que já conhecia de vista, talvez da sua passagem (de boa memória, diga-se) pela RTP. Foi antes a notícia que acompanhava a foto. Algo do género: "Administração da RDP (ou direcção, já não posso precisar) acaba com a dança da menina". A notícia caiu em mim como quem lê o obituário.
"A menina" era a minha companhia de já algum tempo aos domingos à noite durante duas horas (22:00/00:00) na Rádio Comercial e depois na RDP -Antena 1. O mestre de cerimónias: José Duarte.
«A Menina Dança?», assim se chamava (chama) o programa, desfilava clássicos e não só do chamado Jazz cantado, do Swing, das grandes orquestras até meados do século XX, sempre sem esquecer as grandes vozes. A este cocktail José Duarte juntava estórias dessas músicas e dos seus intérpretes.
Escândalos, vidas sentimentais, existências fatais e afins. O showbizz desses tempos idos tinham um narrador à altura, que falava com conhecimento e autoridade. Um dos episódios que guardo mais vivamente na memória foi a do rapto do filho de Frank Sinatra.
A narração cuidada e comentada de José Duarte "mostrou-nos" todo o folhetim que por acaso até teve um desfecho feliz. Mas muitos outros episódios foram relatados pelo autor do programa, também ele um homem cheio de história.
Sinatra é uma paixão, até mesmo uma fixação assumida - e bem - por José Duarte. Felizmente não está sozinho. Tal como ele próprio já disse em antena, "Sinatra é imortal".
Há mais ou menos dois anos, na remodelação da Antena1, a menina voltou a dançar. Agora à segunda-feira, da meia-noite à uma. Não é a mesma coisa.
Penso que era mais proveitoso quando o salão de dança estava aberto por duas horas nas noites de domingo. Mas hoje em dia o futebol ocupa muitas noites e o domingo na rádio - pelo menos à noite - já não pode ser o que já foi.
Acresce a isto tudo um pormenor importante: é que, a nível nacional, só neste programa é possível ouvir a voz de Sinatra passar na rádio portuguesa. Mas o toque inimitável de José Duarte, a classe e o saber, continuam lá. E continuam também os diálogos (na verdade monólogos) de José com a "menina" (Edite Sombreireiro). E continua a soar a voz de Sinatra. A um tempo no final de cada emissão, por vezes no início, por vezes no início e no fim. Sinatra não só é imortal como está presente em todas as sessões em que a menina dança. Sinatra também dança, sempre. Com ela.
A presença recorrente de Sinatra pode ter um propósito mais ou menos evidente, como por exemplo nas comparações com o novel prodígio canadiano Michael Bublé, ou então na relação de Sinatra com Hollywood, mas é sempre convidado para o salão em que a menina responde à pergunta:
- A menina dança?
- Só canções de Sinatra.

Vou até um pouco mais longe, e dizer que José Duarte poderia fazer deste programa uma emissão só com Frank Sinatra. Por um tempo. Não se perderia nada com isso. E cada vez que surgisse a pergunta chave, a menina lá exclamaria sem nenhuma hesitação:
- Só com José Duarte!

(José Duarte é também autor do espaço "Cinco Minutos Jazz" do qual falarei futuramente)




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